O cavalo de Tróia da esquerda, o cavalo de Napoleão das massas e o cavalo encilhado da História. 

                                                                                                                                               17/01/22                                                                                                                           

 

  É comum a ideia entre indivíduos ou organizações de esquerda ou da pretensa esquerda brasileira de que as massas são apáticas, letárgicas ou aceitam pacificamente o massacre cotidiano que lhes é historicamente imposto, ideia que acaba atribuindo as próprias massas a responsabilidade pelo seu aviltamento e ao mesmo tempo isenta a pretensa esquerda do seu fracasso enquanto representante das massas. Nem é preciso falar do caráter liberal desse tipo de afirmação, não só porque atribui as massas a culpa pelo seu destino, mas porque ignora as mediações socioeconômicas que envolvem a vida dos homens e as contradições a ela subjacentes.

  Vladimir Ilyich Lênin, por volta de 1920, chamou a atenção de Georg Lukács para a falta de conexão entre a “consciência atribuída” e a realidade efetiva dos homens, afinal, o filósofo húngaro desconhecia o cotidiano das massas como fonte provedora da consciência revolucionária, ele partia do pressuposto de que essa era elaborada teoricamente por uma vanguarda iluminada, o que também acabava sendo produto de uma modelo teórico de sociedade e não da sociedade realmente existente. Lenin, que já a época atinava para a ontologia, apontava que é das experiências, ações, crenças e pensamentos das massas reais, enfim da vida cotidiana dos homens concretos que devemos extrair os conteúdos potencialmente revolucionários, não importando o quanto essas massas tenham consciência ou não desse potencial, geralmente elas não tem, porem ele é imanente ao ser das mesmas. Foi neste contexto que Lenin escreveu “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, um pequeno, mas potente livro contra o sectarismo e o voluntarismo de seu tempo, principalmente o de Lukács, aliás o mesmo dos dias de hoje.

  Se a esquerda brasileira não lê Marx ou não faz deste um guia para o seu horizonte, ao menos deveria seguir os conselhos de Maquiavel quando apontou a Virtú e a Fortuna como as qualidades do príncipe para um governo bem sucedido. Antecipando-se três séculos antes de Marx e tendo atrás de si dois mil anos depois de Aristóteles, Maquiavel pode atinar para o verdadeiro e negativo caráter da política, ainda que a entendesse como necessária e inerente a humanidade. Segundo Maquiavel, Virtú é uma capacidade fundamental ao governante, ele precisa ser flexível como as circunstancias, mudando com elas para alcançar a Fortuna (oportunidade histórica). Assim se o príncipe agir sempre da mesma maneira, de acordo com os mesmos princípios em todas as situações, não terá sucesso e não poderá agarrar a Fortuna no momento em que ela passar por ele. Aliás, isso nos remete a Lenin quando afirmava que devemos ser flexíveis na política, mas intransigente na teoria. No caso da esquerda brasileira, ou no nosso caso, os vultos aqui citados não nos servem de inspiração, assim o caráter negativo ou fluido da política é substituído pela ética na política ou pela política como lócus por excelência da resolução das mazelas sociais. O mesmo ocorre com as oportunidades históricas (o cavalo encilhado) que são mal baratadas, ou por incompreensão das mesmas (o mais provável) ou em virtude dos interesses menores, os da própria esquerda.

  Não é de hoje que as massas, movida pelo sofrimento brutal da exploração, mas encarnando o cavalo da razão, comparecem na cena histórica questionando de forma contundente a ordem das coisas. Desde os tempos do Império que as massas sacrificam suas vidas contra o brutal sacrifico que o sistema lhes impõe como condição de reprodução para uma vida sem sacrifícios dos donos da ordem. Basta pensar nos massacres da Cabanagem paraense com seus 40 mil mortos; na Balaiada maranhense com outros 10 mil assassinados; em Canudos com seus 30 mil sertanejos massacrados em virtude da vida comunal; na Greve de 1917 em São Paulo e em muitos outros exemplos.  Porém muito mais próximos de nós temos as Reformas de Base do Governo João Goulart, um verdadeiro programa popular que propunha alterações  fundamentais na plataforma econômica, perspectivando dessa forma uma nova configuração social, aliás, razão do sangrento golpe militar de 1964; as greves do ABC paulista, um gigantesco movimento sindical que poderia ter sido transformado em um movimento operário e também alterado a estrutura econômica excludente e responsável pelo Bonapartismo assim como pela miséria das massas; as eleições de 1989 na qual perdemos a chance de “quebrar as pernas do modelo econômico” como dizia Brizola; a vitória eleitoral de Lula (2003 – 2010), com todos os limites e concessões que fez a classe dominante, mas um operário e nordestino de origem humilde no poder; as manifestações de 2013 que assustou a burguesia, mesmo que na sequencia imediata ela tenha controlado o movimento e colocado a seu serviço; a adesão a vacinação em massa no país, contrariando a orientação e o negacionismo do governo federal, assim como o irracionalismo mundo afora. Todos esses exemplos mostram a falácia da apatia das massas!

  Se nos últimos quarenta anos a esquerda não foi capaz de aproveitar os generosos momentos históricos em que o cavalo passou encilhado, contrariando o proverbio gaúcho que diz que o corcel só passa um vez, é porque essa esquerda, e nós fazemos parte dela, de há muito, está montada no cavalo de Tróia do politicismo e do distributivismo que a caracteriza. Se a esquerda brasileira feito um Dom Quixote com seu Rocinante vive quebrando moinhos de vento com seu voluntarismo desconectado da realidade objetiva e do cotidiano das massas, a culpa não é das massas, até porque, essas, ainda que não saibam, encarnam o cavalo de Napoleão, aquele sobre o qual asseverou Hegel na Alemanha dos seu tempo: “Eis a razão a cavalo”.  

  O filósofo brasileiro José Chasin chamou a atenção para a condição das massas abandonadas e sem direção e asseverou: essas “tem a força como a força da gravidade que, sozinha é que nem trovão e relâmpago, cai em qualquer lugar e mais provoca incêndio do que geração de energia”, no caso brasileiro, desde o final da Ditadura que essas massas vem sendo conduzida para o limitado campo da política institucional. Foi também esse grande pensador marxista que,  em outro contexto, não muito distante do nosso, mas diante da mesma estrutura econômica excludente e da mesma burguesia autocrática, disse a respeito de um outro representante da extrema direita da elite brasileira, Collor de Mello em 1989, o mesmo que poderíamos dizer de Bolsonaro na atual conjuntura: “Em verdade |...| se a figura de um semidesconhecido vem sendo o desaguadouro (como foi em 2018) da insatisfação popular, é porque o aparato partidário existente – seus programas e candidatos, suas atuações passadas e presentes – não tem correspondido consistentemente à sensibilidade e as inclinações das maiorias. Esta, na precariedade de existência e formação que as jugula, buscam encontrar de alguma forma, a cada oportunidade, a encarnação de seus próprios anseios. Propósitos que não são mais do que reação imediatas a partir do sofrimento cotidiano, que não tem como ultrapassar o nível do depoimento sincero e pungente, mas desarticulado, incapaz de projetar ou até mesmo de distinguir soluções globais e reais. Assim, ficam as grandes populações à mercê dos cantos de sereia, submetidas à mais bárbara exploração espiritual, tanto mais se as organizações partidárias que pretendem atuar a partir delas deixam o campo livre ou se mostram incapazes de as sensibilizar e esclarecer. Os equívocos das massas desvalidas subentendem, pois, fraquezas e erros políticos maiores e mais graves – reais e ideais – das agremiações partidárias, muito em especial daquelas que se auto intitulam de esquerda”. Não poderia haver sentença mais favorável as massas do que essa!

  Na atual conjuntura e diante do processo eleitoral de 2022, o cavalo de Napoleão das massas aponta para a derrota de Bolsonaro e a manada de pangarés de extrema direita que usurparam o poder político no Brasil, certamente não estaremos diante do cavalo encilhado da História, mas será uma grande oportunidade para superarmos o cavalo de Troia que a esquerda anda montado desde o fim do Ditadura Militar.

 

Regis Marat

 

 

 

Comentários

  1. Perfeito! Uma visão sofisticada, mas cheia do Escurecimento Das Ideias. As cartas estão na mesa e o jantar foi servido, façamos nós a regra e a divisão de forma assertiva.
    Axé!

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